Banal

Esse conto, “Banal”, segue uma linha bem diferente de “A Luz Vermelha”. Foi escrito meio às pressas, para poder entrar na antologia que será publicada até o final do ano.  O texto está meio bruto em alguns pontos, mas confio nos revisores para consertar possíveis problemas.

No início, a trama lembra um pouco comerciais de margarina, mas ganha ares grotescos no final

Agora, leiam o conto e divirtam-se.

                                                                            Banal

Depois de mais um dia de trabalho no Ministério Público, Pedro chegou ao prédio em que residia. Posicionou seu carro novo, que nem emplacado fora, na entrada da garagem e acenou para que Severino, o porteiro, acionasse o botão que abria o portão automático. Guiou o veículo rampa abaixo e o estacionou na garagem subterrânea. Cumprimentou o manobrista e entrou no elevador, rumo ao seu apartamento no 14° andar, o 1402. Estava de bom humor, como sempre que chegava ao lar, de noitinha, depois de um dia de labuta. Adorava conversar e brincar com suas crianças e, depois, curtir a vida de casado.

Assim que pôs a chave na fechadura, já podia ouvir seus filhos, alegres e barulhentos, indo recebê-lo na entrada. Pedro entrou em seu apartamento e, imediatamente, abraçou o casal de filhos, levantando-os brevemente do chão, num aperto amoroso. Quando saíra do trabalho, comprara um jogo de videogame para seu filhote e uma boneca para sua princesinha. Jogou com o menino no Nintendo Wii, enquanto a menina ficava ao seu lado, entretida com seu presente e afagando o pai.  

Cláudia, sua esposa, estava no banho no momento em que chegara. Quando saiu, atrapalhou rapidamente a jogatina entre pai e filho frente à TV para receber seu esposo com um beijo carinhoso, porém respeitoso.  

– Vou esquentar o jantar, crianças – disse Cláudia – e depois de comer, cama. As crianças assentiram, obedientes.

Com a mesa posta, os quatro se sentaram. Conversaram sobre o dia de cada um, especialmente o das crianças, que eram as mais empolgadas em narrar suas atividades. O único momento desagradável foi quando o menino reclamou que tinha apanhado no recreio para uma criança maior, que o perseguia de vez em quando.

Nesse momento o casal se revoltou. Pedro queria conversar diretamente com os pais da criança, mas a esposa não concordou e sugeriu que seria melhor trabalhar o problema pedagogicamente, com a coordenação e a direção da escola. Ambos decidiram que seria bom para o garoto, que o mesmo fosse matriculado em alguma arte marcial. Apesar da notícia preocupante em relação ao bullying sofrido pelo filho, o bate-papo familiar, como sempre, foi agradável. Depois que o último terminou sua refeição, Cláudia tirou a mesa.

– Meus amores – disse a mãe – agora é hora de escovar os dentes e ir dormir. Vocês têm aula cedo, amanhã.

Enquanto Cláudia lavava a louça, Pedro ia preparar as crianças para dormir. Observou-os fazer sua higiene bucal e levou cada um pro seu quarto. O menino deitava e dormia logo, mas a menina, a princesinha da família, era mais mimada e muito apegada ao pai. Dormia apenas depois de longos minutos de cafuné.

Com as crianças na cama e a louça lavada, o amplo apartamento, recém-adquirido, era agora só do casal. Sentaram-se no sofá e calcularam algumas contas da família: mensalidades do colégio das crianças, do curso de inglês e, agora, estipulavam o valor do karatê ou jiu-jitsu para o menino. Calculadas as pendências, planejaram o futuro e as próximas aquisições.

Depois de discutidas as questões familiares, ligaram a colossal TV de LED e procuraram algo de bom na vasta programação que a TV a cabo oferecia. Escolheram um suspense em um canal de filmes e o assistiram até o fim, abraçados. Quando a programação terminou, Cláudia estava sonolenta. O estado de Pedro era o oposto; tinha problemas moderados de insônia e fazia uso de medicamentos para controlar o distúrbio, talvez provocado pelas estressantes atividades no Ministério Público do Rio de Janeiro.

Pedro foi com a esposa para o quarto e deitaram abraçados, debaixo do edredom. Inevitavelmente, fizeram amor com a paixão de namorados adolescentes que tinham acabado de se conhecer. Depois do ato, ligaram o televisor do quarto no canal de noticiários. O repórter noticiava o assassinato de uma prostituta e a prisão do suspeito do crime. Enquanto o âncora descrevia os detalhes, Cláudia decidiu que não queria assistir àquilo.

– Ah não, amor – protestou Cláudia – Muda de canal. No noticiário só passa coisa ruim. Só violência, corrupção e catástrofe.

-É verdade – respondeu Pedro – Mas saber que essas coisas ruins acontecem diariamente bem ao nosso redor, é importante – argumentou – Nos lembra de termos cautela por aí. Temos filhos – ponderou – e além do mais, parece ter alguma coisa a ver com o caso em que estou trabalhando lá no MP.

– Ei sei, amor – Cláudia respondeu com compreensiva paciência, mas não se mostrava tão tensa. – Você é preocupado demais, Pedro. Por isso você não dorme direito. Culpa desse seu trabalho que também te suga. – bocejou e continuou – Falando nisso, toma seu comprimido e muda logo de canal. Não é hora para tragédias nem assuntos de trabalho – Deu um longo e úmido beijo de boa noite no marido e fechou os olhos.

Pedro tomou o calmante e mudou para o canal de documentários. Estava na hora de seu programa favorito, sobre caça. O jovem e bem-sucedido chefe de família apreciava o esporte desde criança, mas não teve muitas oportunidades de praticá-lo, afinal, não é um passatempo visto com bons olhos no Brasil. Enquanto passava na tela a imagem detalhada de um caçador preparando seu rifle, o homem, recostado na cabeceira, lembrou com carinho de seus finais de semana, feriados e férias nos dias antigos, quando ia para a roça, na casa de seu avô. Ambos saíam frequentemente para caçar capivara. O velho usava uma espingarda e ele, apenas um moleque franzino, uma carabina de ar comprimido. Além da emoção de rastrear, perseguir e alvejar, um alvo móvel e dele tirar alimento para a família; a caça trazia à sua mente o saudosismo daquela época inocente, da fazenda e de seu falecido avô. Na tela, a programação seguia, com o caçador atirando em um alce. Ao mesmo tempo, o remédio ia fazendo efeito. Decidiu dormir, pois o dia seguinte seria cheio.

O dia amanheceu e o despertador gritou. Pedro viu que sua esposa já havia saído para levar os filhos ao colégio e provavelmente, resolver o caso de bullying. Lutou contra o sono químico que ainda trabalhava sua mente e foi preparar seu café da manhã. Misturou leite e Ovomaltine em um copão e bebeu quase tudo de uma vez. Fez a barba, vestiu-se, colocou o suspensório que guardava sua pistola automática e deu o nó na gravata. Praguejou em silêncio por ter de vestir o paletó no calor do Rio de Janeiro, durante o dia inteiro. Pegou a chave do carro, tirou-o da garagem e foi trabalhar.

Lá fora, o calor estava de derreter pele e carne. Os pedestres suavam. Pedro ligara o ar-condicionado no máximo. O trânsito carioca, como sempre, estava caótico naquela manhã, desintegrando-lhe o bom-humor até a última partícula. Em cada semáforo era obrigado a gritar contra os “lavadores de para-brisas profissionais” que, invariavelmente, chegavam espirrando água imunda – Pedro desconfiava de que era mijo com detergente – nos vidros escuros de seu carro novo em folha. Às vezes, como todo motorista normal, tinha vontade de passar por cima deles, mas se limitava a xingá-los de nomes particularmente criativos. “Esse caos do Rio enriquece muito nosso repertório de palavrões” refletiu.

Depois de um par de horas engarrafado e avançando lentamente, o homem conseguiu chegar à sede do Ministério Público de sua comarca, no centro do Rio. Ao entrar no edifício, seu humor melhorou sensivelmente, pois sempre encontrava rostos simpáticos, sorrisos gentis e olhares de admiração. Cumprimentou a todos indiscriminadamente no hall de entrada. Enquanto aguardava o elevador que levava à Vara Criminal e ao seu escritório, contemplou uma belíssima estátua trabalhada em metal que adornava o salão. Tinha a forma de uma mulher vendada que segurava em uma das mãos, uma espada, e na outra, uma balança. “Justiça”. Deu de ombros.

No elevador, encontrou alguns amigos de trabalho, de quem Pedro genuinamente gostava. Havia camaradagem entre eles. Um deles cutucou Pedro e apontou com o queixo para a morena que estava na frente.

– Olha que espetáculo – cochichou o amigo.

– Porra, Batata! Sou casado – protestou Pedro, mas rindo para amigo. Mesmo assim não resistiu e deu uma olhadela discreta para os glúteos empinados, soltos sob a saia.

– Mas não está morto, pelo que eu estou vendo, não é taradão? – respondeu Batata, provocando risos contidos no grupo de amigos. A menina desceu no andar da Vara Trabalhista e todos olharam meio embasbacados o rebolado da moça, inclusive Pedro. Agora só os companheiros estavam no elevador e Batata novamente falou, mudando o clima:

– Morreu mais uma prostituta – disse Batata – Viu na TV? Pegaram o cara.

-Ah, mas eu duvido que seja o elemento que matou as outras – rebateu Pedro – Viu a cara do infeliz? Esse de ontem deve ser só mais um desses tarados que comem e matam pra não pagar, achando que são espertos. Além do mais, os padrões não batem.

– Bem, esse fodeu, não pagou e se fodeu – Batata debochou. Risinhos preencheram o elevador.

– Pegar traficante é mole – interveio outro colega, Arnaldo – Mas esses malucos são mais espertos. Lembra-se daquele Maníaco do Parque?

– Pois é! – concordou Pedro – Vocês se lembram de quantas meninas o filho da puta matou e o tempo que demoraram pra encontrar o cara? – Pedro estava irado, afinal ele tinha sido designado para o caso.

– Pedro, você está fodido com esse processo – disse Batata dando tapinhas nos ombros do amigo.

-Vocês sabem o que me deixa puto da vida? – perguntou Pedro – É a incompetência da Polícia Civil nesses casos. Os caras só sabem investigar assalto, tráfico, bêbado batendo na mulher…

– E quando aparece um psicopata atípico, são ineficientes e não conseguem investigar sozinhos – completou Arnaldo – E sobra para nós, que deveríamos observar mais indiretamente para montar o caso e acusar o elemento no tribunal, mas acabamos investigando como polícia comum e correndo perigo em campo. Nosso trabalho é no fórum, porra!

Nesse instante, o elevador chegou ao andar desejado, mas o grupo continuou conversando enquanto se dirigiam para suas salas um a um.

– E advinha quem deve ir à carceragem interrogar aquele infeliz de ontem? – a pergunta de Pedro era retórica.

Pedro chegou à porta de seu escritório, despediu-se dos amigos, e entrou. Colocou o paletó no cabide, tirou a arma e a colocou sobre uma pilha de processos e, finalmente, atirou-se na cadeira e ficou um tempo olhando para o teto. Voltou seu pensamento para o filho e imaginou o que sua amada Cláudia estaria fazendo a respeito. Balançou a cabeça para afastar os problemas familiares, e preparar seu raciocínio para mergulhar na barbárie que permeava seu ofício. Analisou alguns processos; leu e se deparou com algumas fotografias aterradoras de alguns homicídios e escreveu vários despachos. Após limpar sua mesa a cota do dia, conferiu na agenda os compromissos para aquele dia. Ele teria três audiências, sendo uma delas, um júri popular. Examinou sem interesse os documentos referentes à morte das prostitutas. Isso o fez se lembrar do  infeliz que fora detido no dia anterior e se encontrava encarcerado em uma delegacia próxima. Telefonou para o delegado e pediu que o preso fosse preparado para interrogatório. Pôs sua arma no suspensório e vestiu o paletó. Trancou sua sala e dirigiu-se até seu objetivo. Mas o fazia apenas por fazer; tinha certeza de que aquele criminoso não era o responsável pelo assassinato das outras prostitutas.

Pedro chegou à delegacia. Todos o conheciam e o cumprimentaram com simpatia e brincadeiras respeitosas. O jovem promotor retribuía, sendo simpático e gentil com todos. O delegado, um colega de faculdade, o conduzira até o preso para que fosse interrogado.

O suspeito era, claramente, um pobre coitado. Só de olhar, estava óbvio que não tinha a inteligência necessária para matar quase uma dezena de mulheres antes de ser pego. O sujeito era ignorante, falava errado e não captava as sutilezas e armadilhas das perguntas. Pedro deixou o encarcerado com a certeza de que ele tinha matado apenas a prostituta do dia anterior, e só para não pagar pelos serviços. O jovem promotor estava perdendo a paciência com o caso. Precisava achar logo um culpado.

Depois de sair da delegacia, seguiu para o fórum, para o júri popular de um homicídio duplamente qualificado. Pedro amava o júri, estudara Direito especialmente para viver esses momentos. O julgamento foi acalorado; e a batalha contra a Defesa, cheia de provocações e argumentos incisivos, principalmente por parte da Acusação.

Findo o júri popular, Pedro mais uma vez se saíra vitorioso. Aquela fora uma vitória importante para sua carreira.

Seguiu para as duas próximas audiências, que seriam mais simples; apenas ele, a defesa, o réu e o juiz. Esses compromissos foram rápidos e sem aborrecimentos. Em um deles, Pedro saíra vitorioso, no outro, não.

Seu expediente se aproximava do final e Pedro estava feliz com isso, ansioso para que chegasse o logo aquele momento especial de algumas noites, que lhe recarregava as baterias. Voltou para o prédio do Ministério Público, entrou em sua sala e se sentou com os pés na mesa. Como dormia mal à noite, acabou cochilando um pouco ali mesmo.

Quando acordou, a noite já havia caído. Imediatamente pegou seu smartphone e ligou para a esposa, avisando que iria jogar sinuca com Batata e, depois, se reuniriam na casa do mesmo para trabalhar numa pilha de processos pendentes. Também avisou a ela que provavelmente, quando chegasse, ela já estaria dormindo. Pediu-lhe para mandar um beijo para os filhos e deixar a comida na geladeira para que esquentasse no micro, quando chegasse.

O relógio marcava sete e meia da noite. Pedro praguejou por ainda ser cedo demais. Precisaria enrolar na rua, até chegar o horário apropriado para efetuar o que pretendia. “A Polícia Civil é muito incompetente mesmo”, sorriu com uma ponta de desprezo. Decidira que, naquela noite, ele mesmo iria chafurdar-se no mundo promíscuo da prostituição, esperando a manifestação do assassino em série. Para fazer hora, foi passear no shopping, onde comeu uma pizza na praça de alimentação. Posteriormente, visitou uma loja de videogames e comprou mais dois jogos de Nintendo Wii para seu filho. Em seguida, foi até loja de brinquedos e comprou três bonecas para sua princesinha. Caminhou mais algum tempo entre as lojas até decidir assistir a um filme no cinema.

Quando promotor saiu do cinema, o relógio já marcava quase meia-noite. Era hora de agir. Pegou seu carro preto, com vidros escuros, e seguiu rumo a Copacabana, um dos maiores centros de prostituição do Rio, depois das dez da noite.

O veículo escuro percorria a Avenida Atlântica devagarinho, observando as mulheres da vida que ali transitavam em busca de dinheiro fácil. Uma delas esfregou os seios nus nos vidros escuros. O motorista abriu uma fresta.  A mulher não era feia.

-Gosta deles amor? – perguntou a prostituta massageando os mamilos

– Adoro. São deliciosos! – respondeu Pedro, empolgado com a visão.

– Então… Você me quer, gostosão?- quis saber a meretriz

-Dá a volta e entra no carro, meu bem – ordenou Pedro com voz dócil.

-Não, não, amorzinho. Não saio com os clientes – declinou a mulher – Tá vendo a segunda janela daquele prédio? É lá que vou te fazer feliz.

-Então fica pra próxima, minha linda. Queria te levar a um lugar melhor – beijou o ar na direção da prostituta e pôs o carro em movimento novamente

Esperou sair do campo de visão da mulher com quem fracassara em negociar e começou a sondar outros alvos. Passou por um grupo de meretrizes, algumas interessantes, mas as ignorou e continuou a dirigir. Não lhe interessava que alguém o visse caçando garotas de programa, afinal, era casado com uma esposa maravilhosa, pai de lindas crianças e tinha uma carreira brilhante e promissora. Assim sendo, procurava uma que estivesse sozinha, relativamente longe dos pontos mais movimentados da avenida. Não demorou muito e avistou. Pedro não acreditou na própria sorte. Poucos metros adiante, ele viu um taxi parar, e dele, desceu uma mulher estonteante: loira, pernas grossas e bem torneadas, seios fartos que pareciam naturais, e o traseiro grande e empinado. A moça parecia estar começando o expediente naquele momento. Assim que ela pagou o taxista, aproximou o carro da loira, que já rodava sua bolsa. Parou e abriu uma fresta do vidro do carona e acenou.

A mulher sorriu, ajeitou a dourada e lisa cabeleira e inclinou-se à janela do carro.

– Olha só! – cantarolou ela, interessada – É difícil ver um cliente tão bonitão e elegante por essas bandas.

Pedro sorriu com o elogio e tratou de retribuir

– A palavra “beleza”, e qualquer derivado, deveriam ser usados somente para você – disse Pedro realmente impressionado com a mulher – Acredito que nem “bonita” é o suficiente para você. Você é muito mais que isso, é linda, uma verdadeira divindade da luxúria. Nenhuma mulher nessa avenida deveria receber esses adjetivos enquanto você estiver presente.

– Nossa! – exclamou a loira, ruborizada e visivelmente feliz com as palavras do rapaz – Estou sem palavras. Além de ser um gato, você fala bonito e parece inteligente e culto.

– Não sou isso tudo, minha linda – respondeu humildemente – É sua perfeição que me inspira.

– Como você é diferente dos outros! – disse ela, encantada com Pedro – Eu adoraria sentir como eu te inspiro.

Pedro apertou um botão e a porta do carro se abriu. A bela prostituta entrou e sentou no banco do carona, sem hesitar. Pedro ficou excitado só em sentir o perfume da mulher. A visão das grossas coxas e do belíssimo par de seios atrás do decote ousado o atiçava ainda mais.

Pedro conduziu seu carro para bem longe dali, distante, do outro lado da cidade. Passaram por uma estrada com pavimentação ruim, ladeada por árvores densas. Em determinado ponto, a estrada inclinou-se numa subida. Nenhum outro carro passava por eles, nem próximo.

-Para onde estamos indo? – quis saber a loira, enquanto passava a mão sobre a calça de Pedro.

-Vamos para um morro, curtir um momento mágico com as estrelas e a lua nos observando.

– Que sorte a minha! Encontrar um partido como você no quinto programa que eu faço. – revelou a jovem meretriz.

 – Não… – disse Pedro com uma voz lupina – Que sorte a minha!

Depois de uma hora de subida, chegaram a uma encosta, totalmente deserta. Além do precipício, o lugar exibia uma visão maravilhosa da cidade lá embaixo, suas luzes oscilantes e carros percorrendo estradas, visíveis apenas por causa das lanternas vermelhas. Pedro saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para a moça sair. Ficaram encostados no carro.

– Qual o seu nome? – Pedro quis saber.

– Mariana – respondeu a mulher.

– Não parece nome de guerra – gracejou o promotor.

-Porque não é – rebateu com um sorriso tímido.

O jovem promotor olhou mais atentamente para Mariana. Era pouco mais que menina, com não mais que vinte anos, provavelmente dezenove. Isso o excitou ainda mais.

Pedro começou a fazer carícias nas pernas carnudas de Mariana, enquanto sua boca brincava no pescoço liso e perfumado da garota. Subiram no capô do carro e se esfregaram. Pedro ficou surpreso com a iniciativa da jovem em beijá-lo na boca, ainda mais de língua. Afinal, não era o comportamento normal de uma garota de programa. Ela abriu as pernas e ele entrou. Ficaram quase uma hora lá. Fizeram de tudo, inclusive coisas que não ousava tentar com sua esposa, mesmo ela sendo fogosa e tranquila em relação a sexo.

Depois dos gemidos e gritos abafados de prazer terem cessado, ficaram abraçados, comtemplando o céu noturno e a vida urbana, centenas de metros abaixo.

– Posso saber seu nome? – quis saber Mariana.

– Gilberto – mentiu Pedro.

– Sabe, Gilberto, hoje eu vou sem dinheiro para casa – confessou a jovem – Não vou cobrar nada de você depois de uma noite tão maravilhosa. Foi delicioso, não pareceu trabalho. Você não precisa pagar nada.

Pedro sorriu de maneira lupina.

– Não mesmo, querida. – concordou Pedro, sério e seco – Quem vai pagar algo aqui, é você, minha linda.

Mariana arregalou os olhos, apavorada. Pedro deu-lhe um soco no rosto e outro no estômago, fazendo Mariana gritar de dor e pavor. Ela caiu sentada no chão. Tentou freneticamente se arrastar para trás. O agressor pegou seu terno jogado sob o capô do carro e sacou uma pistola com silenciador. Obviamente, não era a sua arma. Como promotor de justiça, tinha acesso a outras armas, inclusive as apreendidas, de numeração raspada.

-Corre – ordenou Pedro, a voz fria – Corre pela sua vida, puta.

A jovem levantou-se, mas não conseguia correr, só gritar. O homem deu um tiro na terra, perto dos pés dela, fazendo-a sair em disparada. Não tinha para onde ir. Correu paralelamente ao penhasco, até se afastar o bastante e tentar a direção oposta da queda.

Pedro teve um flashback de suas caçadas da juventude, quando corria atrás dos animais, com eles na mira, e disparava. Tentou emular a imagem que viera à sua mente. Mirou na panturrilha da prostituta e apertou o gatilho. Ela gritou e se espatifou no chão. Mariana gritava e chorava desesperadamente, babava de terror, enquanto arrastava-se o mais rápido que podia, usando os braços e a perna boa. O atirador apenas caminhava, sem pressa, na direção da vítima.

– Por favor, não me mate! – implorou aos prantos.

-Não adianta gritar, donzela – debochou Pedro – Aqui, a essa hora, ninguém vai te ouvir.

Pedro cantarolava, enquanto se aproximava. Quando chegou junto de Mariana, virou-a de barriga para cima com o pé.

-Por quê? – choramingou a jovem.

-Porque gosto de caçar – respondeu – Sou um caçador. Desde a infância.

Cega pelo pavor e ao mesmo tempo pela fúria desesperada, Mariana respondeu, perdendo momentaneamente a noção do perigo.

-Não, não! Caçadores caçam animais – encarou a jovem, com a coragem daqueles que nada mais tem a perder – Você é um assassino. Apenas um maníaco covarde.

– Viu só? Então eu sou mesmo um caçador, porque, você é um animal – rebateu o caçador – aposto que muitos a chamam de cadela – ofendeu – E o ser humano é o mais inteligente dos animais, o que faz dele o mais perigoso. Por isso eu mato animais como você – respondeu com sinceridade doentia e desdém – Mas devo confessar que você me decepcionou. Caiu na minha conversinha fiada. Fácil demais.

-Gilberto, por favor, eu tenho um filho pequeno para alimentar – implorou Mariana.

-Então vou poupá-los da vergonha de ter uma mãe puta – disse impiedosamente, enquanto apontava a arma clandestina.

A mulher começou a gritar desesperada diante da certeza de que morreria ali: naquele momento e naquele lugar.

Pedro disparou um tiro na barriga e outro no coração, concluindo a sua caçada.

Arrastou a morta até a borda do precipício. Amarrou pedregulhos nas mãos e pés do cadáver e o empurrou com o pé. A jovem caiu como uma boneca de pano, batendo nos pedregulhos proeminentes do abismo, sendo arremessada de um para o outro, até atingir a grande massa d´água que findava a queda.  A pistola teve o mesmo fim.

Pedro pegou seu carro e foi embora, fazendo o caminho de volta até a base da montanha. De lá, seguiu para casa.

Quando chegou ao edifício, ninguém o viu. O condomínio não contava com porteiro à noite e Pedro abriu o portão da garagem com o controle remoto. Pegou o elevador até o décimo quarto andar e entrou em casa.

Tirou a roupa e a colocou na lavadora. Em seguida, tomou um bom banho para tirar o cheiro de sexo e perfume feminino do corpo. Depois, voltou à sala, pegou os processos que disse à sua esposa que estaria trabalhando, e os colocou sobre a escrivaninha do escritório do apartamento. Depois, pegou as bonecas de sua filhota amada e colocou na mesinha de cabeceira rosa, ao lado de sua cama. Fez o mesmo com os jogos de Wii que comprara para o seu rapazinho.

Foi para o seu quarto, onde sua amada Claudia dormia profundamente e deitou-se. Deu um beijo longo e amoroso na testa da esposa e sussurrou:

-Eu te amo minha flor.

Virou para o lado. Pedro sentia-se leve, satisfeito. Ninguém nunca desconfiaria dele. Sua sede secreta fora saciada e ele estava feliz. Olhou para os comprimidos de dormir e sorriu, ignorando-os. Já estava com sono. Naquele dia ele não precisou de química para adormecer. Teve sonhos vermelhos e proibidos, mas deliciosos.

 

                                                           FIM

23/08/2011 at 01:51 Deixe um comentário

A Luz Vermelha

Inaugrurando a categoria dos contos no Multiverso Reverso, apresento-lhes “A Luz Vermelha”. Trata-se de uma narrativa escrita no primeiro bimestre do primeiro ano de Letras lááááá em 2005 ou 2006. A idéia era adaptar um poema do Mário Quintana (não me pergunte qual é) para uma narrativa em prosa.

Depois de ter entregue o trabalho, esqueci-o por completo. Apenas recentemente, revirando umas velharias aqui em casa, encontrei o rascunho original do texto em questão. Depois de ler, resolvi trabalhar no manuscrito, adaptando-o para meu estilo atual, fazendo algumas alterações e corrigindo alguns detalhes, mais ainda mantendo a essência da primeira versão. O conto a seguir fará parte de uma antologia a ser publicada em formato de livro físico, organizado pela minha turma da pós de Produção Editorial.

Não é o meu trabalho favorito, mas fiquei bastante orgulhoso do resultado. Talvez não agrade a todos por ser excessivaente negativo e digressivo.

Agora, fiquem com o conto. Espero que gostem.

*****

A Luz Vermelha

Em seu apartamento escuro, bagunçado, sujo e povoado por baratas, Virgínia chorava sentada em uma cama velha, sem lençol e forro rasgado. Em sua mão esquerda segurava um cigarro, na direita, um retrato de seu filho Douglas, de nove anos. O garoto falecera havia três semanas, devido a problemas cardíacos que o acompanhavam desde o nascimento, oriundos da gravidez regada a álcool e cocaína, além dos serviços profissionais de sua gestante.

A fase do choque e desesperada negação já tinha passado, mas fora substituída por uma intensa saudade e insuportável vácuo. Não mais chorava cachoeiras e gritos agonizantes; agora, apenas filetes de salgados escorriam em sua face, deslizando sobre as rugas adquiridas em quase meio século de vida lasciva.

Virgínia olhou em volta e percebeu que nunca tivera nada.  Tudo o que enxergou foram paredes sujas e inchadas pelas infiltrações, um espelho manchado com a moldura rachada, o chão de tacos velhos e soltos de onde brotavam algumas baratas, um televisor antigo que exibia um programa evangélico e, por fim, na cabeceira, três linhas feitas de um pó branco e cristalino. Para Virgínia, a cocaína era um anestésico que a fazia se sentir menos decadente do que realmente era, dava-lhe coragem para ir trabalhar, e o mais importante: camuflava a profunda e incisiva agonia de perder o único filho. Douglas era sua razão de viver.

Esticou-se até a cabeceira, pegou uma nota de cinco reais e a enrolou na forma de um canudo. As três carreiras foram aspiradas por completo, fazendo o nariz sangrar, como sempre acontecia quando abusava. Era a única maneira de encarar seu trabalho de prostituta: drogada.

A mulher vestiu uma meia calça para disfarçar as celulites por baixo de uma saia curta, e uma blusa decotada que ajudava a moldar seus seios já não mais tão firmes e belos quanto outrora. Olhou-se no espelho para dar uma última conferida, limpou a sujeira branca e avermelhada de seu nariz e saiu de casa, para a vida.

Depois de caminhar pelas ruas sujas, escuras e perigosas do centro do Rio de Janeiro, Virgínia chegou ao seu local de trabalho: uma simples porta de madeira encimada por uma lâmpada vermelha incandescente. Abriu a porta, cumprimentou o segurança e se preparou para subir as escadas que levavam ao sobrado.

“Não aguento mais essa merda de vida. Isso precisa acabar logo”, pensou Virgínia, com um suspiro desanimado enquanto subia lentamente as escadas íngremes, temendo o que encontraria lá em cima. Já conseguia ouvir a música sertaneja saída do jukebox, que ecoava alta demais para o ambiente, tornando-o ainda mais perturbador.

Virgínia respirou profundamente, e adentrou no recinto para mais um dia de trabalho asqueroso, com clientes ainda mais asquerosos. O próprio local a enojava, pois era um doloroso reflexo de sua existência. Um pequeno palco circular de madeira, de onde se projetava um poste improvisado, localizava-se no centro do recinto. Uma jovem sem beleza ali dançava de maneira tosca, exibindo suas formas sem contorno. Vagabundos da pior espécie sentavam-se ao redor do “queijo”; alguns gritando elogios vulgares e, outros, xingamentos.  Todos eles embriagados ou drogados.

Em um canto do vasto salão ficava o bar, repleto de garrafas de cachaça e outras bebidas fortes. Um homem de meia idade, chamado Carlos, e sua mulher, uma prostituta aposentada vinte anos mais jovem, serviam drinks à clientela. O homem era dono do lugar; responsável pelas meninas, e também encarregado de “acalmar” os clientes mais afoitos. Um jukebox, enfeitado com luzes neon berrantes, estava encostado em uma parede abarrotada de calendários de borracharia e pôsteres de mulheres nuas, infinitamente mais atraentes do que aquelas que ali desfilavam.

O cafetão, Carlos, gritou de trás do bar o nome de Virgínia. Revirando os olhos e bufando discretamente, a mulher atendeu ao chamado.

_Virgínia!  – Carlos exclamou com indisfarçável ironia – Olha só quem ta te esperando ali no sofá.

Virgínia virou-se para ver quem era. Quando viu, seu rosto deformou-se numa expressão de ódio e repulsa. Era um homem que aparentava não mais do que quarenta anos, trajado de branco, como um marinheiro. Seu olhar, cruel e faminto, denunciava o quanto ele ansiava por um brinquedo em forma de mulher, algo que provavelmente ele não via há meses, por passar a maior parte do tempo em alto mar. Dois marinheiros mais jovens estavam sentados com ele, conversando animadamente. O mais velho, porém, não desviava o olhar de sua presa, que conversava com o barman e o olhava temerosa, com o canto dos olhos.

_Não, Carlos! – protestou Virgínia, mais alto do que deveria – Não vou mais com aquele babaca. Não lembra? Ele me espancou na última vez, e me obrigou a dar conta dos outros também. Ele é uma aberração! Qualquer um, menos aquilo – olhou de soslaio na direção do sofá.

Carlos riu. Um misto de deboche e raiva. Segurou firme o braço de Virgínia, com a intenção de causar dor.

_ Escuta aqui, piranha – sua mão forte a apertava cada vez mais – Esqueceu do que você é? Esqueceu de como consegue dinheiro para comer e cheirar seu pó? – O cafetão a puxou mais para perto, falando-lhe olho no olho – Você trabalha para mim, vagabunda; e a não ser que queira voltar pras esquinas, faça o que eu digo, porque quem manda nessa birosca aqui, sou eu! – esbravejou, quase babando – Agora, vai fazer seu trabalho, puta – e soltou o braço da mulher, deixando marcas de dedos.

Virgínia segurou o braço dolorido e, mesmo assim, arriscou-se a suplicar mais uma vez.

_Não Carlos, por favor! Qualquer outro, menos ele. – Diante da ameaça de ser esbofeteada, a mulher se encolheu, e caminhou na direção dos marinheiros.

Enquanto se dirigia a encontro do homem que a apavorava, Virgínia, num lampejo, passou a encarar o temível momento que se aproximava como uma oportunidade de por um fim ao seu tormento. A mente da mulher começou trabalhar e uma torrente de pensamentos desesperados a fizeram ponderar sua vida. Talvez, imaginava, com uma simples atitude, pudesse por um fim a seu tormento.

Por que ter medo? Nada restava-lhe. Perdera o filho, sua mãe a ignorava  envergonhava-se dela, estava ficando velha e não vislumbrava esperanças de melhorar sua situação, o apartamento em que morava era um chiqueiro, e nem dela era. Via-se como uma puta sem honra e entregue ao vício. Lembrou-se que em diversas ocasiões tentou cortar os pulsos, mas faltou-lhe coragem suficiente. Estava convencida de que não tinha nada a perder. Nunca tinha conseguido, ela mesma, dar um fim ao seu sofrimento; mas e se ela instigasse uma situação que levasse um terceiro a fazer o serviço?

Virgínia sabia que aquele homem que a esperava, tinha um temperamento cruel e doentio; matar, não seria um problema para ele, se fosse provocado. Abriu caminho entre os bêbados, viciados e bandidos, até ficar cara a cara com seu objetivo. O estado de embriaguez do
marinheiro, embora não fosse debilitante, era claramente perceptível.

_Olá, princesa! – disse com ironia, enquanto passava a mão na parte interior da coxa de Virgínia _Vamos pro quartinho, tesuda.

_Nem em sonho – rebateu com voz de nojo, enquanto afastava a mão do marujo – Prefiro um mendigo sarnento

O homem ficou pálido de ódio e, por um instante, sem reação. Quando finalmente absorveu as palavras da meretriz, agarrou seu braço com força e tentou se levantar usando-a como apoio, mas não conseguiu. Levou uma cusparada nos olhos e um tabefe na face esquerda, caindo de volta no sofá. Os dois jovens que o acompanhavam, explodiram em gargalhadas e logo os risos de deboche se espalharam por todo o salão: uns mais discretos e outros escrachados.

Furioso e com a moral em frangalhos, o ébrio marinheiro investiu contra Virgínia, aplicando-lhe um soco desajeitado, mas eficaz; derrubando-a de costas para o chão. O olho direito da mulher inchou quase que imediatamente. Ela chorou, e suas lágrimas borraram a maquiagem pesada.

Houve reações. Meia-dúzia de clientes indignados investiram contra o homem do mar, socando-o e chutando-o, até deixa-lo se contorcendo no chão.

Irado com a confusão em seu estabelecimento e preocupado com uma possível visita inconveniente da polícia, Carlos, o dono do estabelecimento, levantou a prostituta do chão e a enxotou do lugar.

Ferida, no corpo e na alma, Virgínia caminhava pelas ruas escuras e sinistras dos arredores, as lágrimas escorrendo pela face e pingando pelo queixo. Mergulhada em suas lamúrias, a mulher ignorava as sombras noturnas que espreitavam ao redor. Não percebeu que o homem que a agredira momentos antes, seguia-a discretamente, com a mão direita cintilando um brilho metálico.

Um terrível grito de dor, agudo como uma agulha, ecoou pelos prédios e vielas. Janelas ao redor se acenderam, e rostos curiosos e omissos pipocaram em cada uma delas, morbidamente curiosos. Uma roda de mendigos, viciados em crack, prostitutas e travestis rodeavam Virgínia estirada, moribunda, com sete perfurações distribuídas entre seu tórax, abdômen e dorso. Uma enorme poça rubra espalhava-se ao redor.

Do chão, Virgínia avistava a multidão que se aglomerava ao seu redor, curiosos e apáticos. Sequer vislumbrou um reflexo de seu  algoz ,mas isso não a preocupava, pois agora, sabia, tudo acabaria. O filme de sua vida desdobrava-se diante de seus olhos vidrados e um turbilhão de pensamentos, reflexões e dúvidas degladiavam-se uns contra os outros, disputando fiapos de sua consciência residual.

Enquanto seu corpo esfriava e esvaziava, a mente trabalhava freneticamente em seus últimos suspiros de atividade. Sentia-se prestes a se libertar. Ansiava por encontrar seu filho. Para sua decepção, lembrou-se de que provocara a própria morte e vivera em pecado desde sempre; não apenas nas últimas horas, mas durante toda sua vida.  Lembrou-se das lições obtidas em sua infância cristã. Aprendera que libertinagem é pecado, que prostituição é o passaporte para a danação. O suicídio, diziam, era o pior dos pecados, e garantia uma passagem sem volta para o inferno.

Virgínia sabia que sempre fora, de certa forma, uma suicida. Usava cocaína desde moça, e era ciente de que aquilo a matava lentamente; prostituíra-se durante anos sem conta; e agora, cometera o suicídio literal e derradeiro, provocando a própria morte, mesmo que indiretamente. À sua mente, que já se esvaía, veio-lhe a lembrança de que quando as crianças morriam, iam direto para o paraíso, automaticamente absolvidos de suas transgressões. Compreendeu, então, que, embora nunca tivesse feito mal a alguém, apenas a si mesma, seu destino seria o oposto. Nunca na eternidade veria seu filho novamente. O submundo a aguardava. Isso deveria ser um pensamento aterrorizante, mas ao pesar os fatos, percebeu que sempre viveu no pior dos infernos. Não acreditava que nenhum daqueles que a esperava, poderia ser mais terrível do que este do qual se despedia naquele momento. Teve certeza: o inferno era a terra, o que viesse depois, seria lucro, por pior que fosse; até mesmo se não houvesse nada no outro lado. Se sua alma apenas se desfizesse e se espalhasse como poeira etérea no universo, sem ir para lugar algum, simplesmente deixando de existir, estaria feliz. Na verdade, era isso o que mais queria.

Enquanto sirenes de polícia podiam ser ouvidas se aproximando, os olhos de Virgínia tornaram-se opacos. Sua pele esfriara e sua consciência abandonou a casca, iniciando sua jornada para outro lugar no espaço-tempo, com certeza, melhor do que o mundo material.

                                                                                                                 FIM

                                                                                                                                                                             André Luiz Monteiro de Carvalho

04/08/2011 at 05:02 2 comentários

A Canção da Espada

 

Capa de A Canção da Espada: bela, mas não tanto quanto às demais.

A Canção da Espada é o quarto volume das ótimas Crônicas Saxônicas, do britânico Bernard Cornwell. A série narra os eventos que resultaram na unificação e cristianização da Inglaterra pelo rei Alfredo, aos olhos de seu guerreiro Uthred, nascido na Nortumbria e criado pelos invasores nórdicos, a quem combate relutantemente em nome de seu monarca cristão.

Assim como dito nos posts sobre os demais livros da série, a capa de A Canção da Espada é parte de um painel único que pode ser admirado com todos os volumes postos lado a lado. Porém, mesmo contando com os mesmos responsáveis pelo projeto gráfico dos lançamentos anteriores, este aqui apresenta a parte mais fraca da, até então, pentalogia. A ilustração não se destaca como as demais.

 Quanto ao texto, A Canção da Espada mantém o nível elevado de qualidade visto nos volumes anteriores. A narrativa é tensa e frenética, com combates memoráveis a todo instante, não deixando o leitor descansar e respirar. Um dos atrativos do livro se deve ao fato de ser ambientado na Londres medieval, descrita como suja e pestilenta, e serve como um fantástico pano de fundo para uma das batalhas mais impressionantes de toda a série. omo sempre e, o protagonista, Uthred, está mais violento do que nunca. A trama do livro já começa com uma batalha e, é nas primeiras páginas que o leitor percebe que o anti-herói está ainda mais selvagem. Os vilões estão tão odiosos e traiçoeiros quanto no volume anterior

O leitor que acompanha a série perceberá que o volume anterior, Os Senhores do Norte, fecha um arco na vida de Uthred, resolvendo as rixas de sangue que pendiam desde o primeiro livro. Em A Canção da Espada, novos vikings antagonizam a trama e os dinamarqueses não são os únicos inimigos. Os noruegueses também estão presentes.

Esse quarto livro da série mantém a qualidade dos anteriores, mas não escapa de alguns escorregões. Algumas situações soam forçadas, como por exemplo, a cena do morto-vivo. Outra vacilada é que, a batalha final, embora empolgante e muito bem estruturada, acaba se mostrando longa demais. Fica perceptível que em determinado ponto Cornwell perdeu a paciência e acelerou a conclusão do embate.  

Apesar desses pequenos deslizes, A Canção da Espada é um excelente livro, tão empolgante quanto os anteriores, e que deixa o leitor com o bolso coçando pra ir à livraria mais próxima e adquirir o recém-lançado Terra em Chamas, a quinta parte da saga de Uthred e do Rei Alfredo.

22/10/2010 at 01:57 Deixe um comentário

Os Senhores do Norte

Os Senhores do Norte é o terceiro volume das Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell.  A série mostra a trajetória do rei Alfredo e sua luta para unificar a Inglaterra e combater – ou converter ao cristianismo – os invasores dinamarqueses.

Como de costume, o projeto gráfico de Os Senhores do Norte é um colírio, apresentando o mesmo aspecto visual dos demais livros da série. Porém, neste terceiro, somos presenteados com uma das melhores capas de toda a coleção. Como dito em outros posts, cada capa mostra uma ilustração que, quando postas lado a lado, formam um painel. Os Senhores do Norte estampa justamente uma das partes mais bonitas desse todo.

Se no livro anterior Bernard Cornwell optou por um ritmo mais lento, aqui ele retoma o dinamismo do primeiro, descrevendo um evento relevante atrás do outro. A ação é ininterrupta, mas nem por isso o desenvolvimento dos personagens é deixado de lado; pelo contrário, continuam detalhados e carismáticos como antes, e seus relacionamentos permanecem empolgantes. Infelizmente, Alfredo aparece pouco e faz falta.

Os Senhores do Norte passa uma sensação de clímax, e sob certo ponto de vista, o é; embora esteja longe de ser o final da saga. Isso acontece porque nesse livro temos um dos pontos altos da vida do personagem narrador Uthred. A trama gira em torno de um de seus grandes objetivos, a tal rixa de sangue, presente desde O Último Reino.  Porém, em algum momento o protagonista é traído (Ei! Isso não é spoiler; consta até na orelha do livro!) e em conseqüência disso temos um punhado de páginas enfadonhas, que dão uma quebrada na história. Mesmo assim, esse trecho é de grande importância para a trama, mas fica a impressão de que o autor poderia ter enxugado um pouco. Passada essa parte, a narrativa não só retorna ao seu padrão, como fica ainda mais veloz; o que sob certo specto,acabou prejudicando um pouco o restante do livro.

A tão alardeada rixa de sangue acontece de maneira ligeiramente superficial, podendo ter sido mais esmiuçada pelo autor. Ficou a sensação de que o Cornwell estava com pressa em acabar o livro. Ainda assim, o final não decepciona e empolga bastante, entregando ao leitor justamente aquilo que ele espera, sem grandes surpresas desta vez. 

 Como os demais livros do autor, a aquisição é recomendada.

 

02/08/2010 at 01:11 Deixe um comentário

O Cavaleiro da Morte

O Cavaleiro da Morte é a continuação direta de O Último Reino e, como seu antecessor, faz parte da saga intitulada Crônicas Saxônicas, escrita por Bernard Cornwell.

A apresentação gráfica e a encadernação, assim como no livro anterior, são belíssimas. O projeto gráfico segue o padrão dos demais volumes da série: o mesmo desenhista, o mesmo fundo cinzento (ou prateado para os sortudos), e a mesma fonte em alto relevo. Enfim, o mesmo design. Um observador mais atento deve ter notado que esses dois primeiros livros, se colocados lado a lado, formam um painel, que se completa com os romances posteriores da série.

Em O Cavaleiro da Morte, Bernard Cornwell mantêm a qualidade em relação ao romance anterior e sua narrativa continua primorosa e viciante , com a brutalidade e a atmosfera crua costumeiras. Nesse livro, porém, é adotado um ritmo diferente, um pouco mais lento e descritivo, com menos ação. Mas em hipótese alguma isso prejudica a obra. Não significa que a história seja parada ou enfadonha; longe disso. Fica claro que o autor optou por seguir esse caminho afim de desenvolver mais profundamente os personagens e seus relacionamentos, características e peculiaridades.

Em O Cavaleiro da Morte os personagens se mostram mais ricos e aprofundados, incluindo os novatos. Não que a primeira parte da história não apresentasse bons personagens – longe disso – afinal o protagonista, o dinamarquês Ragnar e o próprio Alfredo já eram muito bem trabalhados em O Último Reino. O fato é que aqui eles são mais detalhados, incluindo os inéditos, e suas relacionamentos são mais esmiuçados. Pegue por exemplo as namoradas de Uthred: Brida (do livro um) e Iseult (do livro dois) e as compare. O grande destaque do livro é Alfredo, que se mostra uma figura intrigante, contagiante e surpreendente. Uthred, por outro lado, toma atitudes um tanto duvidosas no início da narrativa, prejudicando a conexão com o leitor, que encontra alguma dificuldade em simpatizar com o narrador e seu discurso. Mas isso acontece apenas no início da trama e logo o truculento contador da história recupera a empatia com quem lê o texto.

Como dito anteriormente, o ritmo de O Cavaleiro da Morte é mais contido, e a ação menos presente. Porém, o livro fecha com a melhor sequência de batalha da série até aqui – e a melhor que eu já li. O conflito final é descrito magistralmente. Bernard Cornwell consegue fazer com que o leitor se sinta no meio da carnificina, deixando-o tenso e empolgado. As batalhas são expostas com detalhes brutais, tornando-as ainda mais realistas.

O Cavaleiro da Morte é um livro muito empolgante e bem escrito, com personagens marcantes e carismáticos e entrega um final apoteótico, fazendo com que o leitor coce o bolso, ansioso pelo próximo volume da saga do rei Alfredo e seu guerreiro Uthred.

14/07/2010 at 07:48 Deixe um comentário

O Último Reino

Essa é a primeira crítica literária do Multiverso Reverso, e para iniciar em grande estilo essa nova categoria do blog, nada melhor do que falar sobre o genial escritor britânico Bernard Cornwell, que me envergonho em confessar, conhecia apenas de nome até pouco tempo, quando finalmente resolvi adquirir um de seus livros. Fiquei em dúvida entre os primeiros volumes da Trilogia da Busca do Graal, Crônicas de Artur e Crônicas Saxônicas.  Por algum motivo, acabei optando pelo livro inicial das Crônicas Saxônicas, “O Último Reino”, e não me arrependi.

Antes de começar a analisar a obra devemos estar cientes sobre o que são as Crônicas Saxônicas. Essa saga conta a história do Rei Alfredo, católico devoto, que combateu os invasores dinamarqueses e unificou a Inglaterra. A história é contada através dos olhos de um guerreiro nobre da Nortumbria que é criado pelos invasores vikings. Seu nome é Uthred.

Não devemos julgar um livro pela capa, mas na verdade é essa parte do produto que nos chama a atenção nas livrarias e nos ajuda – embora não seja o fator principal – a escolhê-lo. Nesse aspecto “O Ultimo Reino” impressiona muito. A ilustração da capa e a diagramação ficaram muito bonitas e o título e o nome do autor em auto-relevo dão ainda mais beleza ao trabalho – embora isso seja um recurso comum nos livros atuais. A versão que adquiri foi a da capa cinza, mas o trabalho gráfico se mostra realmente impressionante na primeira edição prateada. Se o modelo padrão já dá vontade de exibi-lo na estante, imagine então a versão prateada. Aqui vai uma dica: compre também os outros volumes da saga e junte-os lado a lado.

Mas como uma bela capa não vale um livro, vamos ao que realmente importa: o texto. A narrativa de Cornwell é primorosa. O autor sabe prender a atenção do leitor como poucos, conseguindo ser bastante descritivo sem nunca prejudicar o ritmo da trama. O texto, narrado em primeira pessoa é leve e sem preciosismos, fazendo de “O Último Reino” uma leitura relativamente fácil, gostosa e rápida. A digestão do texto só não é mais tranqüila por conta do grande número de palavras e nomes estrangeiros e arcaicos, que convenhamos, são necessários para dar maior verossimilhança a um épico com a precisão histórica característica do autor.

 Os personagens são carismáticos e cativantes. Em uma história na qual o bem e o mal são separados por uma linha tênue, aqueles que podem ser considerados vilões são realmente odiosos; e os heróis, simplesmente não podem ser chamados assim. A trama é cruel, selvagem e brutal, assim como a vida deveria ser naqueles tempos. Há quem diga que o protagonista Uthred é um personagem raso, sem profundidade. Eu discordo. Uthred é um guerreiro criado por vikings, que despreza a erudição dos padres; e é ele quem narra tudo. Então, obviamente, o leitor tem acesso à trama através dos olhos de um bruto, um combatente feroz  que, mesmo assim, mostra uma personalidade complexa, que o divide entre os invasores que o criaram e a lealdade para com sua origem saxã.  O narrador constantemente se depara com situações que moldam sua personalidade ao decorrer da narrativa, mantendo-o em constante evolução. Portanto, o protagonista é profundo, sim!

Talvez uma das mágicas da narrativa de Cornwell, que prende tanto a nossa atenção de forma raramente vista, resida na incrível capacidade do autor em surpreender. A história conta com vários plot-twists que viram a cabeça do leitor de cabeça pra baixo. Um outro motivo para o leitor não desgrudar do livro enquanto não chegar ao fim é o ritmo alucinante com que a trama se desenrola.

O livro é muito mais do que recomendado e tem grande potencial para fazer com que você o devore em pouquíssimo tempo. O único ponto negativo vai para o mapa, que é incompleto, omitindo vários lugares que são palcos de eventos importantes no decorrer da narrativa, o que acaba confundindo um pouco os leitores que não conheçam a geografia da Inglaterra.

Bernard Cornwell conseguiu fazer com que eu comprasse os dois próximos volumes das Crônicas Saxônicas, e os dois primeiros das Crônicas de Artur, antes mesmo que eu terminasse O Ultimo Reino.  Cinco livros caros em uma semana. Não é qualquer um que consegue fazer isso comigo.

02/07/2010 at 01:36 5 comentários

Fúria de Titans

Fúria de Titans

Como é de conhecimento geral, está sendo exibido nos cinemas de todo o Brasil o remake do épico sobre mitologia grega, Fúria de Titans. Em algumas (raras) salas, o filme foi exibido através da tecnologia da moda: o 3D. Como o filme foi rodado em 2D e, só então, depois de pronto, convertido para o 3D para pegar carona no sucesso de Avatar, o resultado nas projeções que fazem uso dessa nova ferramenta foi aquém do esperado pelo público. A versão aqui analisada é a convencional, em duas dimensões.

Para aqueles que esperam um filme inovador, capaz de romper barreiras, sugiro que vá com menos sede ao pote. A produção  propõe apenas um entretenimento despretensioso para a família, tendo como público alvo as crianças, adolescentes. Prova disso foram os aplausos dos jovens no final da sessão.

Trata-se de um filme concebido para ser leve e acessível a todos. O  roteiro deixa essa intenção bem clara, sendo bastante didático sobre a mitologia grega,  explica cada evento e criatura mítica, o que seria desnecessário se a película fosse dirigida a um público mais específico. Os diálogos são recheados de bravatas clichês e os personagens, claramente estereotipados. Porém, tendo em mente a proposta do filme, o script inocente e despreocupado não chega a atrapalhar, pois o foco aqui está na ação e nos efeitos visuais, e nesse quesito, Fúria de Titans não decepciona nem um pouco.

A ação é constante e as batalhas acontecem ininterruptamente, contra um variado bestiário. Os monstros, aliás, em sua maioria, são um show à parte. A exceção fica para o ser do deserto parece saído diretamente dos seriados Stargate. A Medusa  ficou quase perfeita, respeitando o conceito daquela vista obra original de 1981. Ela se arrasta entre as colunas com sua colossal cauda, atira  flechas, mas seu rosto ficou mal acabado, deixando a computação gráfica aparente demais, o que deu a impressão de que essa parte foi feita as pressas.

O elenco está longe de impressionar – na verdade a grande maioria é composta por canastrões. O Perseu de Sam Worthington carece de carisma e não convence. Nem mesmo grandes nomes como Liam Neeson (Zeus) e Ralph Fiennes (Hades) entregam um trabalho aceitável. Não faria muita diferença se o filme fosse 100% em computação gráfica como fizeram recentemente em Beowulf – na verdade, pegaria menos mal para o elenco.

Mas quem disse que as crianças e adolescentes estão preocupados com esses “detalhes”? Eles querem é muita ação, muitos combates, muitos monstros irados e simples diversão. Nisso, remake de  Louis Leterrier se sai muito bem. Apesar das falhas, o filme empolga, e em momento nenhum o espectador se sente tentado a olhar o relógio.

Aos que ainda não assistiram, não tenham medo de gastar seu rico dinheirinho com a entrada, pois a diversão é garantida. Só não vá esperando um épico no patamar de um Senhor dos Anéis.

Ah, e não esqueça da pipoca.

 

04/06/2010 at 02:50 4 comentários

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