A Luz Vermelha

04/08/2011 at 05:02 2 comentários

Inaugrurando a categoria dos contos no Multiverso Reverso, apresento-lhes “A Luz Vermelha”. Trata-se de uma narrativa escrita no primeiro bimestre do primeiro ano de Letras lááááá em 2005 ou 2006. A idéia era adaptar um poema do Mário Quintana (não me pergunte qual é) para uma narrativa em prosa.

Depois de ter entregue o trabalho, esqueci-o por completo. Apenas recentemente, revirando umas velharias aqui em casa, encontrei o rascunho original do texto em questão. Depois de ler, resolvi trabalhar no manuscrito, adaptando-o para meu estilo atual, fazendo algumas alterações e corrigindo alguns detalhes, mais ainda mantendo a essência da primeira versão. O conto a seguir fará parte de uma antologia a ser publicada em formato de livro físico, organizado pela minha turma da pós de Produção Editorial.

Não é o meu trabalho favorito, mas fiquei bastante orgulhoso do resultado. Talvez não agrade a todos por ser excessivaente negativo e digressivo.

Agora, fiquem com o conto. Espero que gostem.

*****

A Luz Vermelha

Em seu apartamento escuro, bagunçado, sujo e povoado por baratas, Virgínia chorava sentada em uma cama velha, sem lençol e forro rasgado. Em sua mão esquerda segurava um cigarro, na direita, um retrato de seu filho Douglas, de nove anos. O garoto falecera havia três semanas, devido a problemas cardíacos que o acompanhavam desde o nascimento, oriundos da gravidez regada a álcool e cocaína, além dos serviços profissionais de sua gestante.

A fase do choque e desesperada negação já tinha passado, mas fora substituída por uma intensa saudade e insuportável vácuo. Não mais chorava cachoeiras e gritos agonizantes; agora, apenas filetes de salgados escorriam em sua face, deslizando sobre as rugas adquiridas em quase meio século de vida lasciva.

Virgínia olhou em volta e percebeu que nunca tivera nada.  Tudo o que enxergou foram paredes sujas e inchadas pelas infiltrações, um espelho manchado com a moldura rachada, o chão de tacos velhos e soltos de onde brotavam algumas baratas, um televisor antigo que exibia um programa evangélico e, por fim, na cabeceira, três linhas feitas de um pó branco e cristalino. Para Virgínia, a cocaína era um anestésico que a fazia se sentir menos decadente do que realmente era, dava-lhe coragem para ir trabalhar, e o mais importante: camuflava a profunda e incisiva agonia de perder o único filho. Douglas era sua razão de viver.

Esticou-se até a cabeceira, pegou uma nota de cinco reais e a enrolou na forma de um canudo. As três carreiras foram aspiradas por completo, fazendo o nariz sangrar, como sempre acontecia quando abusava. Era a única maneira de encarar seu trabalho de prostituta: drogada.

A mulher vestiu uma meia calça para disfarçar as celulites por baixo de uma saia curta, e uma blusa decotada que ajudava a moldar seus seios já não mais tão firmes e belos quanto outrora. Olhou-se no espelho para dar uma última conferida, limpou a sujeira branca e avermelhada de seu nariz e saiu de casa, para a vida.

Depois de caminhar pelas ruas sujas, escuras e perigosas do centro do Rio de Janeiro, Virgínia chegou ao seu local de trabalho: uma simples porta de madeira encimada por uma lâmpada vermelha incandescente. Abriu a porta, cumprimentou o segurança e se preparou para subir as escadas que levavam ao sobrado.

“Não aguento mais essa merda de vida. Isso precisa acabar logo”, pensou Virgínia, com um suspiro desanimado enquanto subia lentamente as escadas íngremes, temendo o que encontraria lá em cima. Já conseguia ouvir a música sertaneja saída do jukebox, que ecoava alta demais para o ambiente, tornando-o ainda mais perturbador.

Virgínia respirou profundamente, e adentrou no recinto para mais um dia de trabalho asqueroso, com clientes ainda mais asquerosos. O próprio local a enojava, pois era um doloroso reflexo de sua existência. Um pequeno palco circular de madeira, de onde se projetava um poste improvisado, localizava-se no centro do recinto. Uma jovem sem beleza ali dançava de maneira tosca, exibindo suas formas sem contorno. Vagabundos da pior espécie sentavam-se ao redor do “queijo”; alguns gritando elogios vulgares e, outros, xingamentos.  Todos eles embriagados ou drogados.

Em um canto do vasto salão ficava o bar, repleto de garrafas de cachaça e outras bebidas fortes. Um homem de meia idade, chamado Carlos, e sua mulher, uma prostituta aposentada vinte anos mais jovem, serviam drinks à clientela. O homem era dono do lugar; responsável pelas meninas, e também encarregado de “acalmar” os clientes mais afoitos. Um jukebox, enfeitado com luzes neon berrantes, estava encostado em uma parede abarrotada de calendários de borracharia e pôsteres de mulheres nuas, infinitamente mais atraentes do que aquelas que ali desfilavam.

O cafetão, Carlos, gritou de trás do bar o nome de Virgínia. Revirando os olhos e bufando discretamente, a mulher atendeu ao chamado.

_Virgínia!  – Carlos exclamou com indisfarçável ironia – Olha só quem ta te esperando ali no sofá.

Virgínia virou-se para ver quem era. Quando viu, seu rosto deformou-se numa expressão de ódio e repulsa. Era um homem que aparentava não mais do que quarenta anos, trajado de branco, como um marinheiro. Seu olhar, cruel e faminto, denunciava o quanto ele ansiava por um brinquedo em forma de mulher, algo que provavelmente ele não via há meses, por passar a maior parte do tempo em alto mar. Dois marinheiros mais jovens estavam sentados com ele, conversando animadamente. O mais velho, porém, não desviava o olhar de sua presa, que conversava com o barman e o olhava temerosa, com o canto dos olhos.

_Não, Carlos! – protestou Virgínia, mais alto do que deveria – Não vou mais com aquele babaca. Não lembra? Ele me espancou na última vez, e me obrigou a dar conta dos outros também. Ele é uma aberração! Qualquer um, menos aquilo – olhou de soslaio na direção do sofá.

Carlos riu. Um misto de deboche e raiva. Segurou firme o braço de Virgínia, com a intenção de causar dor.

_ Escuta aqui, piranha – sua mão forte a apertava cada vez mais – Esqueceu do que você é? Esqueceu de como consegue dinheiro para comer e cheirar seu pó? – O cafetão a puxou mais para perto, falando-lhe olho no olho – Você trabalha para mim, vagabunda; e a não ser que queira voltar pras esquinas, faça o que eu digo, porque quem manda nessa birosca aqui, sou eu! – esbravejou, quase babando – Agora, vai fazer seu trabalho, puta – e soltou o braço da mulher, deixando marcas de dedos.

Virgínia segurou o braço dolorido e, mesmo assim, arriscou-se a suplicar mais uma vez.

_Não Carlos, por favor! Qualquer outro, menos ele. – Diante da ameaça de ser esbofeteada, a mulher se encolheu, e caminhou na direção dos marinheiros.

Enquanto se dirigia a encontro do homem que a apavorava, Virgínia, num lampejo, passou a encarar o temível momento que se aproximava como uma oportunidade de por um fim ao seu tormento. A mente da mulher começou trabalhar e uma torrente de pensamentos desesperados a fizeram ponderar sua vida. Talvez, imaginava, com uma simples atitude, pudesse por um fim a seu tormento.

Por que ter medo? Nada restava-lhe. Perdera o filho, sua mãe a ignorava  envergonhava-se dela, estava ficando velha e não vislumbrava esperanças de melhorar sua situação, o apartamento em que morava era um chiqueiro, e nem dela era. Via-se como uma puta sem honra e entregue ao vício. Lembrou-se que em diversas ocasiões tentou cortar os pulsos, mas faltou-lhe coragem suficiente. Estava convencida de que não tinha nada a perder. Nunca tinha conseguido, ela mesma, dar um fim ao seu sofrimento; mas e se ela instigasse uma situação que levasse um terceiro a fazer o serviço?

Virgínia sabia que aquele homem que a esperava, tinha um temperamento cruel e doentio; matar, não seria um problema para ele, se fosse provocado. Abriu caminho entre os bêbados, viciados e bandidos, até ficar cara a cara com seu objetivo. O estado de embriaguez do
marinheiro, embora não fosse debilitante, era claramente perceptível.

_Olá, princesa! – disse com ironia, enquanto passava a mão na parte interior da coxa de Virgínia _Vamos pro quartinho, tesuda.

_Nem em sonho – rebateu com voz de nojo, enquanto afastava a mão do marujo – Prefiro um mendigo sarnento

O homem ficou pálido de ódio e, por um instante, sem reação. Quando finalmente absorveu as palavras da meretriz, agarrou seu braço com força e tentou se levantar usando-a como apoio, mas não conseguiu. Levou uma cusparada nos olhos e um tabefe na face esquerda, caindo de volta no sofá. Os dois jovens que o acompanhavam, explodiram em gargalhadas e logo os risos de deboche se espalharam por todo o salão: uns mais discretos e outros escrachados.

Furioso e com a moral em frangalhos, o ébrio marinheiro investiu contra Virgínia, aplicando-lhe um soco desajeitado, mas eficaz; derrubando-a de costas para o chão. O olho direito da mulher inchou quase que imediatamente. Ela chorou, e suas lágrimas borraram a maquiagem pesada.

Houve reações. Meia-dúzia de clientes indignados investiram contra o homem do mar, socando-o e chutando-o, até deixa-lo se contorcendo no chão.

Irado com a confusão em seu estabelecimento e preocupado com uma possível visita inconveniente da polícia, Carlos, o dono do estabelecimento, levantou a prostituta do chão e a enxotou do lugar.

Ferida, no corpo e na alma, Virgínia caminhava pelas ruas escuras e sinistras dos arredores, as lágrimas escorrendo pela face e pingando pelo queixo. Mergulhada em suas lamúrias, a mulher ignorava as sombras noturnas que espreitavam ao redor. Não percebeu que o homem que a agredira momentos antes, seguia-a discretamente, com a mão direita cintilando um brilho metálico.

Um terrível grito de dor, agudo como uma agulha, ecoou pelos prédios e vielas. Janelas ao redor se acenderam, e rostos curiosos e omissos pipocaram em cada uma delas, morbidamente curiosos. Uma roda de mendigos, viciados em crack, prostitutas e travestis rodeavam Virgínia estirada, moribunda, com sete perfurações distribuídas entre seu tórax, abdômen e dorso. Uma enorme poça rubra espalhava-se ao redor.

Do chão, Virgínia avistava a multidão que se aglomerava ao seu redor, curiosos e apáticos. Sequer vislumbrou um reflexo de seu  algoz ,mas isso não a preocupava, pois agora, sabia, tudo acabaria. O filme de sua vida desdobrava-se diante de seus olhos vidrados e um turbilhão de pensamentos, reflexões e dúvidas degladiavam-se uns contra os outros, disputando fiapos de sua consciência residual.

Enquanto seu corpo esfriava e esvaziava, a mente trabalhava freneticamente em seus últimos suspiros de atividade. Sentia-se prestes a se libertar. Ansiava por encontrar seu filho. Para sua decepção, lembrou-se de que provocara a própria morte e vivera em pecado desde sempre; não apenas nas últimas horas, mas durante toda sua vida.  Lembrou-se das lições obtidas em sua infância cristã. Aprendera que libertinagem é pecado, que prostituição é o passaporte para a danação. O suicídio, diziam, era o pior dos pecados, e garantia uma passagem sem volta para o inferno.

Virgínia sabia que sempre fora, de certa forma, uma suicida. Usava cocaína desde moça, e era ciente de que aquilo a matava lentamente; prostituíra-se durante anos sem conta; e agora, cometera o suicídio literal e derradeiro, provocando a própria morte, mesmo que indiretamente. À sua mente, que já se esvaía, veio-lhe a lembrança de que quando as crianças morriam, iam direto para o paraíso, automaticamente absolvidos de suas transgressões. Compreendeu, então, que, embora nunca tivesse feito mal a alguém, apenas a si mesma, seu destino seria o oposto. Nunca na eternidade veria seu filho novamente. O submundo a aguardava. Isso deveria ser um pensamento aterrorizante, mas ao pesar os fatos, percebeu que sempre viveu no pior dos infernos. Não acreditava que nenhum daqueles que a esperava, poderia ser mais terrível do que este do qual se despedia naquele momento. Teve certeza: o inferno era a terra, o que viesse depois, seria lucro, por pior que fosse; até mesmo se não houvesse nada no outro lado. Se sua alma apenas se desfizesse e se espalhasse como poeira etérea no universo, sem ir para lugar algum, simplesmente deixando de existir, estaria feliz. Na verdade, era isso o que mais queria.

Enquanto sirenes de polícia podiam ser ouvidas se aproximando, os olhos de Virgínia tornaram-se opacos. Sua pele esfriara e sua consciência abandonou a casca, iniciando sua jornada para outro lugar no espaço-tempo, com certeza, melhor do que o mundo material.

                                                                                                                 FIM

                                                                                                                                                                             André Luiz Monteiro de Carvalho

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A Canção da Espada Banal

2 Comentários Add your own

  • 1. Fernando Bessa  |  15/08/2011 às 00:19

    Li o seu conto e gostei muito, Mú! O texto transmite uma sensação de crueza, com grande potencial de incomodar leitores acostumados a estórias com final feliz. Acho que reside justamente aí a pujança do seu texto. O incômodo da vida dura, nua, crua, cruel, mas simultaneamente sem pretensão de chocar apenas pelo choque. Percebo uma intencionalidade sua em construir uma narrativa com consistência e apelo dramático, contudo, sem cair num denuncismo falso moralista, postura muito elogiável!

    Achei interessante e corajoso o toque de ironia na escolha do nome da protagonista, marcando o contraste com a sua profissão. Corajoso porque talvez soe óbvio, mas quem disse que a vida é só feita de aspectos inusitados e originais? Longe disso. Na verdade, arriscaria até dizer que provavelmente estão colocados elementos no texto vivenciados por você, o que considero parte intrínseca do trabalho do autor. No clima do dia de hoje, um texto pode ser entendido como um filho nosso… O seu filho é bonito, e você tem motivos prá se sentir orgulhoso dele! Rsrs

    Resumindo numa palavra: Parabéns! Quero ser convidado para a noite de autógrafos do seu primeiro livro, hein?

    Abracetas e beijundas!

    Responder
  • 2. Talma  |  15/08/2011 às 00:32

    Olá André,

    Seu conto é bem realista com cores bem fortes de uma vida desgraçada.

    Nada pior que o baixo mundo e você o colocou bem na sua narrativa.

    É sempre bom ver que um ex-aluno de Letras se preocupa em escrever.

    Continue. Vá em frente. Mande-me outros escritos.

    Um abraço e o carinho de

    Talma

    Responder

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