Banal

23/08/2011 at 01:51 Deixe um comentário

Esse conto, “Banal”, segue uma linha bem diferente de “A Luz Vermelha”. Foi escrito meio às pressas, para poder entrar na antologia que será publicada até o final do ano.  O texto está meio bruto em alguns pontos, mas confio nos revisores para consertar possíveis problemas.

No início, a trama lembra um pouco comerciais de margarina, mas ganha ares grotescos no final

Agora, leiam o conto e divirtam-se.

                                                                            Banal

Depois de mais um dia de trabalho no Ministério Público, Pedro chegou ao prédio em que residia. Posicionou seu carro novo, que nem emplacado fora, na entrada da garagem e acenou para que Severino, o porteiro, acionasse o botão que abria o portão automático. Guiou o veículo rampa abaixo e o estacionou na garagem subterrânea. Cumprimentou o manobrista e entrou no elevador, rumo ao seu apartamento no 14° andar, o 1402. Estava de bom humor, como sempre que chegava ao lar, de noitinha, depois de um dia de labuta. Adorava conversar e brincar com suas crianças e, depois, curtir a vida de casado.

Assim que pôs a chave na fechadura, já podia ouvir seus filhos, alegres e barulhentos, indo recebê-lo na entrada. Pedro entrou em seu apartamento e, imediatamente, abraçou o casal de filhos, levantando-os brevemente do chão, num aperto amoroso. Quando saíra do trabalho, comprara um jogo de videogame para seu filhote e uma boneca para sua princesinha. Jogou com o menino no Nintendo Wii, enquanto a menina ficava ao seu lado, entretida com seu presente e afagando o pai.  

Cláudia, sua esposa, estava no banho no momento em que chegara. Quando saiu, atrapalhou rapidamente a jogatina entre pai e filho frente à TV para receber seu esposo com um beijo carinhoso, porém respeitoso.  

– Vou esquentar o jantar, crianças – disse Cláudia – e depois de comer, cama. As crianças assentiram, obedientes.

Com a mesa posta, os quatro se sentaram. Conversaram sobre o dia de cada um, especialmente o das crianças, que eram as mais empolgadas em narrar suas atividades. O único momento desagradável foi quando o menino reclamou que tinha apanhado no recreio para uma criança maior, que o perseguia de vez em quando.

Nesse momento o casal se revoltou. Pedro queria conversar diretamente com os pais da criança, mas a esposa não concordou e sugeriu que seria melhor trabalhar o problema pedagogicamente, com a coordenação e a direção da escola. Ambos decidiram que seria bom para o garoto, que o mesmo fosse matriculado em alguma arte marcial. Apesar da notícia preocupante em relação ao bullying sofrido pelo filho, o bate-papo familiar, como sempre, foi agradável. Depois que o último terminou sua refeição, Cláudia tirou a mesa.

– Meus amores – disse a mãe – agora é hora de escovar os dentes e ir dormir. Vocês têm aula cedo, amanhã.

Enquanto Cláudia lavava a louça, Pedro ia preparar as crianças para dormir. Observou-os fazer sua higiene bucal e levou cada um pro seu quarto. O menino deitava e dormia logo, mas a menina, a princesinha da família, era mais mimada e muito apegada ao pai. Dormia apenas depois de longos minutos de cafuné.

Com as crianças na cama e a louça lavada, o amplo apartamento, recém-adquirido, era agora só do casal. Sentaram-se no sofá e calcularam algumas contas da família: mensalidades do colégio das crianças, do curso de inglês e, agora, estipulavam o valor do karatê ou jiu-jitsu para o menino. Calculadas as pendências, planejaram o futuro e as próximas aquisições.

Depois de discutidas as questões familiares, ligaram a colossal TV de LED e procuraram algo de bom na vasta programação que a TV a cabo oferecia. Escolheram um suspense em um canal de filmes e o assistiram até o fim, abraçados. Quando a programação terminou, Cláudia estava sonolenta. O estado de Pedro era o oposto; tinha problemas moderados de insônia e fazia uso de medicamentos para controlar o distúrbio, talvez provocado pelas estressantes atividades no Ministério Público do Rio de Janeiro.

Pedro foi com a esposa para o quarto e deitaram abraçados, debaixo do edredom. Inevitavelmente, fizeram amor com a paixão de namorados adolescentes que tinham acabado de se conhecer. Depois do ato, ligaram o televisor do quarto no canal de noticiários. O repórter noticiava o assassinato de uma prostituta e a prisão do suspeito do crime. Enquanto o âncora descrevia os detalhes, Cláudia decidiu que não queria assistir àquilo.

– Ah não, amor – protestou Cláudia – Muda de canal. No noticiário só passa coisa ruim. Só violência, corrupção e catástrofe.

-É verdade – respondeu Pedro – Mas saber que essas coisas ruins acontecem diariamente bem ao nosso redor, é importante – argumentou – Nos lembra de termos cautela por aí. Temos filhos – ponderou – e além do mais, parece ter alguma coisa a ver com o caso em que estou trabalhando lá no MP.

– Ei sei, amor – Cláudia respondeu com compreensiva paciência, mas não se mostrava tão tensa. – Você é preocupado demais, Pedro. Por isso você não dorme direito. Culpa desse seu trabalho que também te suga. – bocejou e continuou – Falando nisso, toma seu comprimido e muda logo de canal. Não é hora para tragédias nem assuntos de trabalho – Deu um longo e úmido beijo de boa noite no marido e fechou os olhos.

Pedro tomou o calmante e mudou para o canal de documentários. Estava na hora de seu programa favorito, sobre caça. O jovem e bem-sucedido chefe de família apreciava o esporte desde criança, mas não teve muitas oportunidades de praticá-lo, afinal, não é um passatempo visto com bons olhos no Brasil. Enquanto passava na tela a imagem detalhada de um caçador preparando seu rifle, o homem, recostado na cabeceira, lembrou com carinho de seus finais de semana, feriados e férias nos dias antigos, quando ia para a roça, na casa de seu avô. Ambos saíam frequentemente para caçar capivara. O velho usava uma espingarda e ele, apenas um moleque franzino, uma carabina de ar comprimido. Além da emoção de rastrear, perseguir e alvejar, um alvo móvel e dele tirar alimento para a família; a caça trazia à sua mente o saudosismo daquela época inocente, da fazenda e de seu falecido avô. Na tela, a programação seguia, com o caçador atirando em um alce. Ao mesmo tempo, o remédio ia fazendo efeito. Decidiu dormir, pois o dia seguinte seria cheio.

O dia amanheceu e o despertador gritou. Pedro viu que sua esposa já havia saído para levar os filhos ao colégio e provavelmente, resolver o caso de bullying. Lutou contra o sono químico que ainda trabalhava sua mente e foi preparar seu café da manhã. Misturou leite e Ovomaltine em um copão e bebeu quase tudo de uma vez. Fez a barba, vestiu-se, colocou o suspensório que guardava sua pistola automática e deu o nó na gravata. Praguejou em silêncio por ter de vestir o paletó no calor do Rio de Janeiro, durante o dia inteiro. Pegou a chave do carro, tirou-o da garagem e foi trabalhar.

Lá fora, o calor estava de derreter pele e carne. Os pedestres suavam. Pedro ligara o ar-condicionado no máximo. O trânsito carioca, como sempre, estava caótico naquela manhã, desintegrando-lhe o bom-humor até a última partícula. Em cada semáforo era obrigado a gritar contra os “lavadores de para-brisas profissionais” que, invariavelmente, chegavam espirrando água imunda – Pedro desconfiava de que era mijo com detergente – nos vidros escuros de seu carro novo em folha. Às vezes, como todo motorista normal, tinha vontade de passar por cima deles, mas se limitava a xingá-los de nomes particularmente criativos. “Esse caos do Rio enriquece muito nosso repertório de palavrões” refletiu.

Depois de um par de horas engarrafado e avançando lentamente, o homem conseguiu chegar à sede do Ministério Público de sua comarca, no centro do Rio. Ao entrar no edifício, seu humor melhorou sensivelmente, pois sempre encontrava rostos simpáticos, sorrisos gentis e olhares de admiração. Cumprimentou a todos indiscriminadamente no hall de entrada. Enquanto aguardava o elevador que levava à Vara Criminal e ao seu escritório, contemplou uma belíssima estátua trabalhada em metal que adornava o salão. Tinha a forma de uma mulher vendada que segurava em uma das mãos, uma espada, e na outra, uma balança. “Justiça”. Deu de ombros.

No elevador, encontrou alguns amigos de trabalho, de quem Pedro genuinamente gostava. Havia camaradagem entre eles. Um deles cutucou Pedro e apontou com o queixo para a morena que estava na frente.

– Olha que espetáculo – cochichou o amigo.

– Porra, Batata! Sou casado – protestou Pedro, mas rindo para amigo. Mesmo assim não resistiu e deu uma olhadela discreta para os glúteos empinados, soltos sob a saia.

– Mas não está morto, pelo que eu estou vendo, não é taradão? – respondeu Batata, provocando risos contidos no grupo de amigos. A menina desceu no andar da Vara Trabalhista e todos olharam meio embasbacados o rebolado da moça, inclusive Pedro. Agora só os companheiros estavam no elevador e Batata novamente falou, mudando o clima:

– Morreu mais uma prostituta – disse Batata – Viu na TV? Pegaram o cara.

-Ah, mas eu duvido que seja o elemento que matou as outras – rebateu Pedro – Viu a cara do infeliz? Esse de ontem deve ser só mais um desses tarados que comem e matam pra não pagar, achando que são espertos. Além do mais, os padrões não batem.

– Bem, esse fodeu, não pagou e se fodeu – Batata debochou. Risinhos preencheram o elevador.

– Pegar traficante é mole – interveio outro colega, Arnaldo – Mas esses malucos são mais espertos. Lembra-se daquele Maníaco do Parque?

– Pois é! – concordou Pedro – Vocês se lembram de quantas meninas o filho da puta matou e o tempo que demoraram pra encontrar o cara? – Pedro estava irado, afinal ele tinha sido designado para o caso.

– Pedro, você está fodido com esse processo – disse Batata dando tapinhas nos ombros do amigo.

-Vocês sabem o que me deixa puto da vida? – perguntou Pedro – É a incompetência da Polícia Civil nesses casos. Os caras só sabem investigar assalto, tráfico, bêbado batendo na mulher…

– E quando aparece um psicopata atípico, são ineficientes e não conseguem investigar sozinhos – completou Arnaldo – E sobra para nós, que deveríamos observar mais indiretamente para montar o caso e acusar o elemento no tribunal, mas acabamos investigando como polícia comum e correndo perigo em campo. Nosso trabalho é no fórum, porra!

Nesse instante, o elevador chegou ao andar desejado, mas o grupo continuou conversando enquanto se dirigiam para suas salas um a um.

– E advinha quem deve ir à carceragem interrogar aquele infeliz de ontem? – a pergunta de Pedro era retórica.

Pedro chegou à porta de seu escritório, despediu-se dos amigos, e entrou. Colocou o paletó no cabide, tirou a arma e a colocou sobre uma pilha de processos e, finalmente, atirou-se na cadeira e ficou um tempo olhando para o teto. Voltou seu pensamento para o filho e imaginou o que sua amada Cláudia estaria fazendo a respeito. Balançou a cabeça para afastar os problemas familiares, e preparar seu raciocínio para mergulhar na barbárie que permeava seu ofício. Analisou alguns processos; leu e se deparou com algumas fotografias aterradoras de alguns homicídios e escreveu vários despachos. Após limpar sua mesa a cota do dia, conferiu na agenda os compromissos para aquele dia. Ele teria três audiências, sendo uma delas, um júri popular. Examinou sem interesse os documentos referentes à morte das prostitutas. Isso o fez se lembrar do  infeliz que fora detido no dia anterior e se encontrava encarcerado em uma delegacia próxima. Telefonou para o delegado e pediu que o preso fosse preparado para interrogatório. Pôs sua arma no suspensório e vestiu o paletó. Trancou sua sala e dirigiu-se até seu objetivo. Mas o fazia apenas por fazer; tinha certeza de que aquele criminoso não era o responsável pelo assassinato das outras prostitutas.

Pedro chegou à delegacia. Todos o conheciam e o cumprimentaram com simpatia e brincadeiras respeitosas. O jovem promotor retribuía, sendo simpático e gentil com todos. O delegado, um colega de faculdade, o conduzira até o preso para que fosse interrogado.

O suspeito era, claramente, um pobre coitado. Só de olhar, estava óbvio que não tinha a inteligência necessária para matar quase uma dezena de mulheres antes de ser pego. O sujeito era ignorante, falava errado e não captava as sutilezas e armadilhas das perguntas. Pedro deixou o encarcerado com a certeza de que ele tinha matado apenas a prostituta do dia anterior, e só para não pagar pelos serviços. O jovem promotor estava perdendo a paciência com o caso. Precisava achar logo um culpado.

Depois de sair da delegacia, seguiu para o fórum, para o júri popular de um homicídio duplamente qualificado. Pedro amava o júri, estudara Direito especialmente para viver esses momentos. O julgamento foi acalorado; e a batalha contra a Defesa, cheia de provocações e argumentos incisivos, principalmente por parte da Acusação.

Findo o júri popular, Pedro mais uma vez se saíra vitorioso. Aquela fora uma vitória importante para sua carreira.

Seguiu para as duas próximas audiências, que seriam mais simples; apenas ele, a defesa, o réu e o juiz. Esses compromissos foram rápidos e sem aborrecimentos. Em um deles, Pedro saíra vitorioso, no outro, não.

Seu expediente se aproximava do final e Pedro estava feliz com isso, ansioso para que chegasse o logo aquele momento especial de algumas noites, que lhe recarregava as baterias. Voltou para o prédio do Ministério Público, entrou em sua sala e se sentou com os pés na mesa. Como dormia mal à noite, acabou cochilando um pouco ali mesmo.

Quando acordou, a noite já havia caído. Imediatamente pegou seu smartphone e ligou para a esposa, avisando que iria jogar sinuca com Batata e, depois, se reuniriam na casa do mesmo para trabalhar numa pilha de processos pendentes. Também avisou a ela que provavelmente, quando chegasse, ela já estaria dormindo. Pediu-lhe para mandar um beijo para os filhos e deixar a comida na geladeira para que esquentasse no micro, quando chegasse.

O relógio marcava sete e meia da noite. Pedro praguejou por ainda ser cedo demais. Precisaria enrolar na rua, até chegar o horário apropriado para efetuar o que pretendia. “A Polícia Civil é muito incompetente mesmo”, sorriu com uma ponta de desprezo. Decidira que, naquela noite, ele mesmo iria chafurdar-se no mundo promíscuo da prostituição, esperando a manifestação do assassino em série. Para fazer hora, foi passear no shopping, onde comeu uma pizza na praça de alimentação. Posteriormente, visitou uma loja de videogames e comprou mais dois jogos de Nintendo Wii para seu filho. Em seguida, foi até loja de brinquedos e comprou três bonecas para sua princesinha. Caminhou mais algum tempo entre as lojas até decidir assistir a um filme no cinema.

Quando promotor saiu do cinema, o relógio já marcava quase meia-noite. Era hora de agir. Pegou seu carro preto, com vidros escuros, e seguiu rumo a Copacabana, um dos maiores centros de prostituição do Rio, depois das dez da noite.

O veículo escuro percorria a Avenida Atlântica devagarinho, observando as mulheres da vida que ali transitavam em busca de dinheiro fácil. Uma delas esfregou os seios nus nos vidros escuros. O motorista abriu uma fresta.  A mulher não era feia.

-Gosta deles amor? – perguntou a prostituta massageando os mamilos

– Adoro. São deliciosos! – respondeu Pedro, empolgado com a visão.

– Então… Você me quer, gostosão?- quis saber a meretriz

-Dá a volta e entra no carro, meu bem – ordenou Pedro com voz dócil.

-Não, não, amorzinho. Não saio com os clientes – declinou a mulher – Tá vendo a segunda janela daquele prédio? É lá que vou te fazer feliz.

-Então fica pra próxima, minha linda. Queria te levar a um lugar melhor – beijou o ar na direção da prostituta e pôs o carro em movimento novamente

Esperou sair do campo de visão da mulher com quem fracassara em negociar e começou a sondar outros alvos. Passou por um grupo de meretrizes, algumas interessantes, mas as ignorou e continuou a dirigir. Não lhe interessava que alguém o visse caçando garotas de programa, afinal, era casado com uma esposa maravilhosa, pai de lindas crianças e tinha uma carreira brilhante e promissora. Assim sendo, procurava uma que estivesse sozinha, relativamente longe dos pontos mais movimentados da avenida. Não demorou muito e avistou. Pedro não acreditou na própria sorte. Poucos metros adiante, ele viu um taxi parar, e dele, desceu uma mulher estonteante: loira, pernas grossas e bem torneadas, seios fartos que pareciam naturais, e o traseiro grande e empinado. A moça parecia estar começando o expediente naquele momento. Assim que ela pagou o taxista, aproximou o carro da loira, que já rodava sua bolsa. Parou e abriu uma fresta do vidro do carona e acenou.

A mulher sorriu, ajeitou a dourada e lisa cabeleira e inclinou-se à janela do carro.

– Olha só! – cantarolou ela, interessada – É difícil ver um cliente tão bonitão e elegante por essas bandas.

Pedro sorriu com o elogio e tratou de retribuir

– A palavra “beleza”, e qualquer derivado, deveriam ser usados somente para você – disse Pedro realmente impressionado com a mulher – Acredito que nem “bonita” é o suficiente para você. Você é muito mais que isso, é linda, uma verdadeira divindade da luxúria. Nenhuma mulher nessa avenida deveria receber esses adjetivos enquanto você estiver presente.

– Nossa! – exclamou a loira, ruborizada e visivelmente feliz com as palavras do rapaz – Estou sem palavras. Além de ser um gato, você fala bonito e parece inteligente e culto.

– Não sou isso tudo, minha linda – respondeu humildemente – É sua perfeição que me inspira.

– Como você é diferente dos outros! – disse ela, encantada com Pedro – Eu adoraria sentir como eu te inspiro.

Pedro apertou um botão e a porta do carro se abriu. A bela prostituta entrou e sentou no banco do carona, sem hesitar. Pedro ficou excitado só em sentir o perfume da mulher. A visão das grossas coxas e do belíssimo par de seios atrás do decote ousado o atiçava ainda mais.

Pedro conduziu seu carro para bem longe dali, distante, do outro lado da cidade. Passaram por uma estrada com pavimentação ruim, ladeada por árvores densas. Em determinado ponto, a estrada inclinou-se numa subida. Nenhum outro carro passava por eles, nem próximo.

-Para onde estamos indo? – quis saber a loira, enquanto passava a mão sobre a calça de Pedro.

-Vamos para um morro, curtir um momento mágico com as estrelas e a lua nos observando.

– Que sorte a minha! Encontrar um partido como você no quinto programa que eu faço. – revelou a jovem meretriz.

 – Não… – disse Pedro com uma voz lupina – Que sorte a minha!

Depois de uma hora de subida, chegaram a uma encosta, totalmente deserta. Além do precipício, o lugar exibia uma visão maravilhosa da cidade lá embaixo, suas luzes oscilantes e carros percorrendo estradas, visíveis apenas por causa das lanternas vermelhas. Pedro saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para a moça sair. Ficaram encostados no carro.

– Qual o seu nome? – Pedro quis saber.

– Mariana – respondeu a mulher.

– Não parece nome de guerra – gracejou o promotor.

-Porque não é – rebateu com um sorriso tímido.

O jovem promotor olhou mais atentamente para Mariana. Era pouco mais que menina, com não mais que vinte anos, provavelmente dezenove. Isso o excitou ainda mais.

Pedro começou a fazer carícias nas pernas carnudas de Mariana, enquanto sua boca brincava no pescoço liso e perfumado da garota. Subiram no capô do carro e se esfregaram. Pedro ficou surpreso com a iniciativa da jovem em beijá-lo na boca, ainda mais de língua. Afinal, não era o comportamento normal de uma garota de programa. Ela abriu as pernas e ele entrou. Ficaram quase uma hora lá. Fizeram de tudo, inclusive coisas que não ousava tentar com sua esposa, mesmo ela sendo fogosa e tranquila em relação a sexo.

Depois dos gemidos e gritos abafados de prazer terem cessado, ficaram abraçados, comtemplando o céu noturno e a vida urbana, centenas de metros abaixo.

– Posso saber seu nome? – quis saber Mariana.

– Gilberto – mentiu Pedro.

– Sabe, Gilberto, hoje eu vou sem dinheiro para casa – confessou a jovem – Não vou cobrar nada de você depois de uma noite tão maravilhosa. Foi delicioso, não pareceu trabalho. Você não precisa pagar nada.

Pedro sorriu de maneira lupina.

– Não mesmo, querida. – concordou Pedro, sério e seco – Quem vai pagar algo aqui, é você, minha linda.

Mariana arregalou os olhos, apavorada. Pedro deu-lhe um soco no rosto e outro no estômago, fazendo Mariana gritar de dor e pavor. Ela caiu sentada no chão. Tentou freneticamente se arrastar para trás. O agressor pegou seu terno jogado sob o capô do carro e sacou uma pistola com silenciador. Obviamente, não era a sua arma. Como promotor de justiça, tinha acesso a outras armas, inclusive as apreendidas, de numeração raspada.

-Corre – ordenou Pedro, a voz fria – Corre pela sua vida, puta.

A jovem levantou-se, mas não conseguia correr, só gritar. O homem deu um tiro na terra, perto dos pés dela, fazendo-a sair em disparada. Não tinha para onde ir. Correu paralelamente ao penhasco, até se afastar o bastante e tentar a direção oposta da queda.

Pedro teve um flashback de suas caçadas da juventude, quando corria atrás dos animais, com eles na mira, e disparava. Tentou emular a imagem que viera à sua mente. Mirou na panturrilha da prostituta e apertou o gatilho. Ela gritou e se espatifou no chão. Mariana gritava e chorava desesperadamente, babava de terror, enquanto arrastava-se o mais rápido que podia, usando os braços e a perna boa. O atirador apenas caminhava, sem pressa, na direção da vítima.

– Por favor, não me mate! – implorou aos prantos.

-Não adianta gritar, donzela – debochou Pedro – Aqui, a essa hora, ninguém vai te ouvir.

Pedro cantarolava, enquanto se aproximava. Quando chegou junto de Mariana, virou-a de barriga para cima com o pé.

-Por quê? – choramingou a jovem.

-Porque gosto de caçar – respondeu – Sou um caçador. Desde a infância.

Cega pelo pavor e ao mesmo tempo pela fúria desesperada, Mariana respondeu, perdendo momentaneamente a noção do perigo.

-Não, não! Caçadores caçam animais – encarou a jovem, com a coragem daqueles que nada mais tem a perder – Você é um assassino. Apenas um maníaco covarde.

– Viu só? Então eu sou mesmo um caçador, porque, você é um animal – rebateu o caçador – aposto que muitos a chamam de cadela – ofendeu – E o ser humano é o mais inteligente dos animais, o que faz dele o mais perigoso. Por isso eu mato animais como você – respondeu com sinceridade doentia e desdém – Mas devo confessar que você me decepcionou. Caiu na minha conversinha fiada. Fácil demais.

-Gilberto, por favor, eu tenho um filho pequeno para alimentar – implorou Mariana.

-Então vou poupá-los da vergonha de ter uma mãe puta – disse impiedosamente, enquanto apontava a arma clandestina.

A mulher começou a gritar desesperada diante da certeza de que morreria ali: naquele momento e naquele lugar.

Pedro disparou um tiro na barriga e outro no coração, concluindo a sua caçada.

Arrastou a morta até a borda do precipício. Amarrou pedregulhos nas mãos e pés do cadáver e o empurrou com o pé. A jovem caiu como uma boneca de pano, batendo nos pedregulhos proeminentes do abismo, sendo arremessada de um para o outro, até atingir a grande massa d´água que findava a queda.  A pistola teve o mesmo fim.

Pedro pegou seu carro e foi embora, fazendo o caminho de volta até a base da montanha. De lá, seguiu para casa.

Quando chegou ao edifício, ninguém o viu. O condomínio não contava com porteiro à noite e Pedro abriu o portão da garagem com o controle remoto. Pegou o elevador até o décimo quarto andar e entrou em casa.

Tirou a roupa e a colocou na lavadora. Em seguida, tomou um bom banho para tirar o cheiro de sexo e perfume feminino do corpo. Depois, voltou à sala, pegou os processos que disse à sua esposa que estaria trabalhando, e os colocou sobre a escrivaninha do escritório do apartamento. Depois, pegou as bonecas de sua filhota amada e colocou na mesinha de cabeceira rosa, ao lado de sua cama. Fez o mesmo com os jogos de Wii que comprara para o seu rapazinho.

Foi para o seu quarto, onde sua amada Claudia dormia profundamente e deitou-se. Deu um beijo longo e amoroso na testa da esposa e sussurrou:

-Eu te amo minha flor.

Virou para o lado. Pedro sentia-se leve, satisfeito. Ninguém nunca desconfiaria dele. Sua sede secreta fora saciada e ele estava feliz. Olhou para os comprimidos de dormir e sorriu, ignorando-os. Já estava com sono. Naquele dia ele não precisou de química para adormecer. Teve sonhos vermelhos e proibidos, mas deliciosos.

 

                                                           FIM

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A Luz Vermelha

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